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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Acordo entre famílias permite exumação dos corpos dos “Mamonas Assassinas”

Passados 30 anos da tragédia, corpos serão exumados, cremados e transformados em adubo

Poucos dias antes da tragédia completar 30 anos, um acordo entre as famílias permitirá que, na próxima segunda-feira (23), os corpos dos cinco rapazes da banda considerada uma das mais divertidas já surgidas no Brasil sejam exumados. Os Mamonas Assassinas, que divertiram o país com suas composições debochadas (Brasília amarela, Robocop Gay, Pelados em Santos, entre outras) perderam a vida num acidente aéreo na Serra da Cantareira, no dia 2 de março de 1996.

Pelo acordo, as famílias irão cremar os corpos e transformá-los em adubo para plantar cinco árvores no BioParque Cemitério de Guarulhos, na cidade onde moravam.

Acordo entre famílias permite exumação dos corpos dos “Mamonas Assassinas”

No dia da tragédia, um sábado,  2 de março de 1996, Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Júlio Rasec e Sérgio Reoli estavam  retornando para casa após um show realizado em Brasília, a bordo do jatinho Learjet modelo 25D, prefixo PT-LSD, fretado pela banda.

O piloto, ao tentar realizar uma arremetida, às 23h15, acabou fazendo a aeronave se chocar contra a Serra da Cantareira, ao Norte de São Paulo. Além dos cinco integrantes dos Mamonas Assassinas, o acidente matou o piloto Jorge Luiz Germano Martins, o copiloto Alberto Takeda, o ajudante de palco Isaac Souto e o segurança Sérgio Porto.

A banda vivia o auge da carreira com a irreverência de seu “rock cômico”, com letras e visual escrachados, que conquistavam o Brasil.

Acordo entre famílias permite exumação dos corpos dos “Mamonas Assassinas”
Os Mamonas Assassinas: no alto, Dinho, Samuel Reoli e Sérgio Reoli; abaixo, Júlio Rasec e Bento Hinoto — Foto: Divulgação

O primeiro e único disco, com o nome da banda, havia sido lançado em junho de 1995 e, nos oito meses seguintes, teve 1,8 milhão de cópias vendidas (número que hoje já chega a 3 milhões de cópias), é o terceiro maior êxito comercial entre artistas nacionais em todos os tempos. O grupo vinha fazendo shows no Brasil todo e viajaria para se apresentar em Portugal ainda na primeira semana daquele mês.

O show no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, seria o último da turnê no Brasil, antes de a banda se concentrar em seu segundo disco. Os Mamonas tocaram para um público de cerca de 4 mil pessoas, na maioria crianças e adolescentes.

Vestindo uma fantasia de coelhinho de pelúcia, Dinho cantava e dançava com a energia de sempre. Ao fim da performance, o cantor desceu ao gramado da arena e agradeceu. Em seguida, foram todos direto para o aeroporto e trocaram de roupa no carro, como fizeram muitas vezes antes.

Acordo entre famílias permite exumação dos corpos dos “Mamonas Assassinas”
Velório no grupo Mamonas Assassinas no Ginásio Municipal Paschoal ThomeuFoto: Jose Luis da Conceição / Agência O Globo

O Ginásio Municipal Paschoal Thomeu, em Guarulhos, na Grande São Paulo, estava lotado com 30 mil pessoas quando os corpos dos cinco roqueiros e dos dois assistentes chegaram à 0h15 de segunda-feira. Os caixões, cobertos com bandeiras do Brasil, ficaram lado a lado na quadra esportiva, em meio a cerca de 300 familiares e amigos próximos. No caixão de Dinho, foi colocada ainda uma camisa do Corinthians. Ao redor da cena, os fãs cantavam sucessos como “Sabão Crá-Crá” e “Pelados em Santos” a plenos pulmões.

A comoção no ginásio continuou crescendo ao longo da segunda-feira, concentrando um sentimento que se espalhava pelo país. O jornalista Elio Gaspari, disse em uma reportagem que “amigos de Guarulhos e desta vida” escreveram mensagens em camisetas de pano estendidas sobre os caixões. “Você é dez”, “O céu estava precisando de alegria”, “Ainda te vejo”. Os recados eram de jovens moradores de “conjuntos habitacionais projetados para viver sem alma”, onde também haviam crescido Dinho e seus parceiros.

Mais de cem mil pessoas estavam no cortejo que levou os corpos até o cemitério Parque das Primaveras I, na parte da tarde. Atendendo a pedidos das famílias, a Polícia Militar impediu a multidão de entrar. Houve tumulto, e foram registrados 31 desmaios. Do lado de fora, muitos fãs agitavam galhos e folhas de mamona, além de cartazes e bandeiras improvisados. Turmas inteiras de ensino fundamental das redes pública e privada mataram aula para estar perto do cemitério na despedida da banda. Houve muito choro e desespero

Ambulantes vendiam tiaras, bandeirinhas brancas com a inscrição “Adeus, Mamonas” e reproduções de fotos da banda, entre outras bugigangas.

Dentro do cemitério, cerca de 500 pessoas, acompanharam o enterro. Os cinco integrantes dos Mamonas foram colocados, junto com Isaac Souto, num mesmo túmulo. A cerimônia teve pouco mais de 40 minutos e incluiu um “Parabéns a você”, em homenagem a Dinho, que, naquele dia 4 de março de 1996, completaria 25 anos de idade. Sua namorada, Valeria Zopello, chorava copiosamente e chegou a passar mal algumas vezes. Depois do enterro, ela reuniu forças para deixar uma declaração sobre os músicos.

– Apesar de todos terem mais de 22 anos, os Mamonas eram crianças – disse ela: – Os meninos gostariam que daqui pra frente a gente fosse alegre como eles foram.

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