Pelo menos três voos com cargas de cocaína teriam sido coordenados entre Alexandre Rodrigues Gomes e seu suposto parceiro Thiago de Oliveira, também conhecido como Flamengo, no período de 2020 e 2021, por meio de comunicações da SKY ECC. Além disso, nessas conversas, também era evidente colaborção com organizações criminosas
A acusação contra o brasileiro Thiago Alessandro de Oliveira Davalos Brites (44), também conhecido como Flamengo ou Polaco, revela que entre 2020 e 2021 ele teria atuado como elo da Bolívia, com organizações fornecedoras de cocaína, com Alexandre Rodrigues Gomes, que atuavam do Paraguai. Esta investigação faz parte do caso chamado Peacock Py II.
Esses dados poderiam ser obtidos pelo Ministério Público por meio de cooperação jurídica, por meio da troca de informações, especificamente conversas realizadas pela plataforma de mensagens criptografadas “SKY Ecc”.
Analistas da Unidade de Investigação Sensível Antinarcóticos (SIU) da Polícia Nacional identificaram o pin “7JBIOJ” associado ao pseudônimo Flamengo, com o qual Thiago de Oliveira foi identificado, e também os pin “67BADE” ligados ao pseudônimo Burberry e também “TQDRDU” alias Legendário, ambos pertencentes a Alexandre Rodrigues Gomes. No entanto, os pesquisadores observaram maior intervenção de Rodrigues Gomes com o pino “TQDRDU”.
No âmbito dessas interações, foi possível identificar que entre novembro de 2020 e março de 2021, Thiago de Oliveira e Alexandre Rodrigues coordenaram um total de três voos carregados de cocaína, vindos da Bolívia e que entraram em território paraguaio. De acordo com a acusação contra de Oliveira, um total de 1.342 pacotes de cocaína foram recebidos nesse período.

Sociedade Alexandre Rodrigues-Thiago de Oliveira
A acusação detalha que Alexandre Rodrigues Gomes era considerado o líder de um grupo criminoso que operava no departamento de Amambay. Nesse contexto, ele ficou encarregado da negociação, aquisição e envio sistemático de cocaína, pasta base e maconha para o Brasil, utilizando aviões vindos da Bolívia.
Por outro lado, presume-se que Thiago de Oliveira tenha atuado como um dos líderes e principais financiadores da estrutura criminosa sob investigação, mantendo um papel de coordenação logística e financeira que o coloca em uma posição de tomada de decisão dentro da estrutura.
Nesse sentido, há dados que indicam que ambos teriam coordenado voos, Thiago de Oliveira da Bolívia e Alexandre Rodrigues do Paraguai, para os embarques de drogas.
As atividades de Thiago de Oliveira incluiriam, simultaneamente, a organização do tráfico internacional de cocaína, bem como o reinvestimento de seus lucros ilícitos no sistema econômico formal da região fronteiriça paraguaio-brasileira.
Justamente nesse contexto, Thiago de Oliveira teria adquirido o edifício “Ervais” localizado na cidade de Ponta Porá, no Brasil; e no Paraguai, ele teria investido seus supostos lucros ilícitos no prédio chamado “Palácio Tetryz”, localizado na cidade de Pedro Juan Caballero, departamento de Amambay, diretamente com seu sócio Alexandre Rodrigues.
Além disso, Alexandre Rodrigues também teria interagido nos grupos SKY ECC com Rodrigo Paredes Alvarenga, um cambista paraguaio preso no Paraguai como parte do caso do interior do Brasil e posteriormente extraditado para aquele país.
Por sua vez, presume-se que Thiago de Oliveira tenha canalizado seus lucros para o sistema financeiro formal por meio de um esquema de lavagem que seria coordenado por Jovenil Vieira Rodrigues, para o qual teriam usado empresas de fachada na fronteira entre Paraguai e Brasil.
Flamengo era responsável pelo pagamento e transporte das drogas
As conversas observadas entre 2020 e 2021 ocorreram em espanhol e português, entre usuários identificados com os pins “7JBIOJ”, também conhecido como Flamengo, de Thiago de Oliveira, e “TQDRDU”, também conhecido como Legendário, de Alexandre Rodrigues Gomes. Na verdade, essas comunicações eram feitas individualmente e em grupos temporários criados exclusivamente para coordenar operações ilícitas.
Assim, no quadro operacional relativo ao tráfico de drogas, Thiago de Oliveira é atribuído como elo direto para a organização boliviana, gerenciando voos para áreas rurais dos departamentos de Concepción e Amambay, em coordenação com Alexandre Rodrigues.
Nesse sentido, o Ministério Público presume que de Oliveira exercia controle sobre o estoque e o fluxo de cocaína produzida na Bolívia, com quantidades precisas das substâncias.
Inclusive, por meio de dados extraídos da SKY ECC, avista-se que Thiago de Oliveira se mudou pessoalmente do Paraguai para a Bolívia, transportando dinheiro em troca de pagamento a fornecedores, que eles chamavam de “cozinheiros”, e depois retornava com as cargas a bordo das aeronaves.
Coordenação de voos e pistas para descida
Segundo o memorial do promotor, em 17 de novembro de 2020, em um grupo onde o pin “OCXPQN” interveio, Thiago de Oliveira, usando o pin “7JBIOJ” e sob o pseudônimo Flamengo, pediu a Alexandre Rodrigues, que usava o pin “TQDRDU” sob o pseudônimo Legendário, que enviasse coordenadas e frequência de rádio.
Vale ressaltar que essa organização criminosa dedicada ao tráfico de drogas, supostamente liderada no Paraguai por Alexandre Rodrigues Gomes, utilizava a modalidade de enviar coordenadas geográficas sob o sistema GMS (graus, minutos e segundos), além de frequências de rádio para estabelecer comunicações e não ser rastreada para coordenar a descida e chegada de aviões carregados de cocaína.
Assim, minutos depois, foi Flamengo quem enviou uma fotografia na qual um pedaço de papel foi observado. Nela estavam escritas as coordenadas 22-25-168 057-16-148, que, ao serem inseridas no Google Maps, indicavam a localização em um ponto de Concepción, especificamente uma pista de terra localizada entre os distritos de San Carlos del Apa e Sargento José Félix López, anteriormente Puensiño.
Nessa operação, foi Alexandre Rodrigues, por meio de seu pin “67BADE” ligado ao pseudônimo Burberry, quem enviou uma frequência de rádio para se comunicar com o piloto da aeronave.
Em 21 de novembro de 2020, a Flamengo estabeleceu que a palavra de ordem para a busca pela carga era “Kejadas Kejadas”.

Posteriormente, em 2 de dezembro de 2020, o Flamengo alertou os outros membros do grupo que iria passar as coordenadas, a frequência de rádio e reiterar a palavra de ordem. Em 3 de dezembro de 2020, as negociações entre Flamengo e Legendário já estavam puramente coordenadas. O primeiro alerta o segundo que o voo estava passando por Santa Cruz de la Sierra, ou seja, estava na metade do caminho, e aponta que é “450”, referindo-se ao peso.
Então, em 12 de dezembro de 2020, Flamengo alertou que havia tempo ensolarado na Bolívia e que outra aeronave poderia ir até lá, porque as “coisas” relacionadas à droga “levam duas horas para serem desenterradas” e levadas para o “campo”, termo usado para se referir à pista.
Mais tarde, na mesma data, Flamengo alertou que o avião carregado caiu antes de decolar. Ele então relatou que não queriam que um mecânico fosse embora e que pretendiam queimar a aeronave porque a consideravam perdida.

Nesse ponto, a acusação destaca que a organização tinha uma importante capacidade de rearticulação diante de eventos de contingência, já que, em caso de acidentes aéreos, o grupo procedia a destruí-los deliberadamente para não deixar evidências.
Em 23 de dezembro de 2020, Flamengo indicou que havia uma carga indicando “450 puma”, em referência ao valor em peso e ao selo para identificar o destinatário final. Então, em 31 de janeiro de 2021, Flamengo também enviou uma foto de sacos de estopa, carregados com pacotes de cocaína com o carimbo “32”, indicando, para a consulta de Legendário, que havia um total de 442 pães.
Fonte: ABC Color


