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sexta-feira, 14 de agosto, 2026

Sistema Appia da Embrapa recebe certificação da Fundação Banco do Brasil como tecnologia social

O Sistema Agroecossistema de Produção Policultural Integrado de Alimentos (Appia), desenvolvido pela Embrapa Agropecuária Oeste (MS), recebeu, em 2026, a certificação de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil (FBB). O reconhecimento amplia as perspectivas de replicação da metodologia, em comunidades quilombolas, assentamentos rurais, povos indígenas e demais territórios da agricultura familiar em todo o País. 

O Sistema Appia integra horticultura diversificada, manejo do solo, irrigação e piscicultura, gerando renda contínua e segurança alimentar. Mais do que um conjunto de práticas agrícolas, o modelo propõe uma estratégia que consiste na integração da pesquisa com a assistência técnica, com foco no planejamento, gestão, estruturação da produção e acesso aos mercados.

Ao agregar pesquisa, assistência técnica, participação social e inovação, consolida-se como uma estratégia capaz de transformar pequenas propriedades em empreendimentos rurais mais sustentáveis, resilientes e economicamente viáveis, ampliando as oportunidades de desenvolvimento para milhares de famílias agricultoras.

Além dos ganhos produtivos, a tecnologia social reúne práticas sustentáveis, que contribuem para a recuperação da fertilidade do solo, uso racional da água, redução da dependência de insumos externos e fortalecimento da organização comunitária. 

Tecnologia começa antes do plantio

O diferencial do Sistema Appia está na aplicação da metodologia participativa em todas as ações realizadas. Antes da implantação das tecnologias, pesquisadores e instituições parceiras realizam um diagnóstico da comunidade para identificar potencialidades e oportunidades, limitações e necessidades locais.

A partir desse diagnóstico participativo, são implantadas Unidades de Referência Tecnológica (URTs) nas propriedades selecionadas pelas comunidades. Os espaços passam a funcionar como laboratórios a céu aberto e vitrines de tecnologias, nas quais os agricultores acompanham o desenvolvimento das ações de implantação e condução, observam os resultados e participam dos cursos, oficinas, dias de campo e intercâmbios.

Outro diferencial é o planejamento dos sistemas produtivos nas propriedades, em módulos iniciais de aproximadamente 2.500 metros quadrados. Essa estratégia reduz os custos de implantação e facilita a adoção, acessível e gradual das tecnologias pelas famílias agricultoras.

Ao longo do processo, são integradas soluções em planejamento da propriedade, manejo agroecológico do solo, horticultura, fruticultura, irrigação, piscicultura, consórcios de culturas, e gestão da produção, formando um sistema produtivo diversificado, resiliente e economicamente sustentável, voltado principalmente para os mercados locais. 

Sistema Appia da Embrapa recebe certificação da Fundação Banco do Brasil como tecnologia social

Pesquisa integrada fortalece a agricultura familiar

 Segundo o pesquisador Ivo de Sá Motta, da Embrapa Agropecuária Oeste, idealizador do Sistema Appia, o principal diferencial do modelo proposto é considerar que a viabilização econômica da família agricultora representa uma etapa fundamental do desenvolvimento rural sustentável.

“O Sistema Appia foi concebido para ir além da adoção de tecnologias de produção. Nossa proposta é fortalecer todos os elos da cadeia produtiva, desde o planejamento da propriedade e o uso sustentável dos recursos naturais até a organização dos produtores, a agregação de valor e o acesso aos mercados. Produzir mais, sem pensar na comercialização e na organização coletiva, não resolve os desafios da agricultura familiar”, destaca Motta.

O pesquisador explica que o sistema integra diferentes instituições, de forma que cada uma contribua com a sua especialidade.  “A assistência técnica, a capacitação, o financiamento da produção e o acesso a insumos e infraestrutura, a organização social e o apoio à comercialização precisam caminhar juntos. É essa conjunção que torna o Sistema Appia uma tecnologia social capaz de transformar a realidade das comunidades”, enfatiza. 

Para Motta, fortalecer o associativismo e cooperativismo é essencial para ampliar a capacidade de negociação dos agricultores na compra de insumos, na venda da produção e no acesso a políticas públicas para consolidação das empresas rurais individualmente e coletivamente. A estruturação física destas comunidades na forma de galpões comunitários e caminhões para preparo, beneficiamento, processamento, transporte e distribuição até os centros consumidores é indispensável para a otimização dos resultados e a viabilização econômica das famílias agricultoras.

Sistema Appia da Embrapa recebe certificação da Fundação Banco do Brasil como tecnologia social

Na Comunidade Quilombola Furnas do Dionísio, em Jaraguari (MS), a propriedade do agricultor familiar Sinval Martins dos Santos tornou-se uma URT do Sistema Appia. Com as orientações recebidas e a implantação das tecnologias, a família diversificou a produção, aumentou a oferta de alimentos a partir do planejamento, estruturação e gestão do negócio agrícola.

“Nós precisamos de apoio em todas as etapas, desde a assistência técnica até à venda da produção”, conta o agricultor, lembrando que um dos maiores aprendizados proporcionados pela adoção do Sistema Appia foi compreender que produzir bem é apenas parte do processo.

“Quando a comunidade unida se organiza e as instituições trabalham em sintonia, tudo fica mais fácil. O Sistema Appia mostrou que o serviço não termina na lavoura. Tem que pensar desde o manejo dos solos, passando pela produção até a hora de colocar o alimento na mesa do consumidor”, complementa.

Os resultados já refletem no planejamento da família. Evellyn (na foto acima, com o pai), a filha de Sinval e de sua esposa, Ivone, pretende ser Engenheira Agrônoma e, para isso já está matriculada no curso de bacharelado em engenharia agronômica da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), em Glória de Dourados (MS).

Acompanhar o desenvolvimento do projeto na propriedade de sua família a estimulou a se especializar nessa área do conhecimento. A expectativa é que em um futuro próximo, possa reforçar a assistência técnica na comunidade quilombola em que a sua família está estabelecida.

Assistência técnica acelera a adoção das tecnologias

O acompanhamento permanente das famílias foi um dos fatores decisivos para os resultados obtidos, avalia o engenheiro agrônomo Flávio Renato da Silva, gestor de Desenvolvimento Agrário, da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) em Jaraguari.

“O nosso trabalho foi acompanhar de perto a implantação do Sistema Appia e apoiar outras demandas da comunidade. A assistência técnica permite identificar necessidades, orientar as melhores práticas e buscar soluções junto às instituições parceiras”, observa Silva.

Segundo ele, a URT tornou-se um importante instrumento de transferência de tecnologia. “Promovemos cursos, palestras, visitas técnicas e orientações para que outros agricultores conheçam os resultados obtidos e possam replicar essas tecnologias em suas propriedades”, acrescenta.
Silva destaca ainda que o modelo do barracão multifuncional (individual) desenvolvido dentro do Sistema Appia já passou a orientar projetos de fomento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) destinados a múltiplas funções, como agroindustrialização, preparação de produção de mudas para horticultura, criação de galinhas de postura, artesanato, entre outras, em pequena escala, em propriedades da comunidade, ampliando o alcance da tecnologia.

Conhecimento construído ao longo dos anos

Para Auro Otsubo (foto abaixo), também pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, o Sistema Appia representa a evolução de diversos projetos de pesquisa desenvolvidos pela Unidade.

“A iniciativa reúne conhecimentos produzidos ao longo de vários anos de pesquisa. Informações obtidas em estudos com mandioca, cana-de-açúcar e outros sistemas produtivos foram incorporadas à metodologia e adaptadas à realidade das comunidades”, afirma Otsubo.

Segundo o pesquisador, a certificação dessa tecnologia social confirma que o conhecimento científico pode ser transformado em soluções concretas para a agricultura familiar.

“Mais do que apresentar uma tecnologia, mostramos que a pesquisa pública gera resultados que podem melhorar a renda, fortalecer a organização comunitária e promover o desenvolvimento rural”, acrescenta.

Ele ressalta ainda que o interesse demonstrado por outras comunidades e municípios evidencia o potencial de expansão da iniciativa.

Sistema Appia da Embrapa recebe certificação da Fundação Banco do Brasil como tecnologia social

Estimativa de Investimentos e contrapartida de parceiro

A implantação da Unidade de Referência Tecnológica (URT) no Sistema Appia contempla estruturas, equipamentos e insumos capazes de garantir produção agrícola diversificada, sustentável e capaz de gerar renda contínua às famílias agricultoras. A seguir, estão relacionados os investimentos previstos por categoria.

A tabela abaixo apresenta os valores estimados na época de desenvolvimento do Sistema Appia, em junho de 2026

Sistema Appia da Embrapa recebe certificação da Fundação Banco do Brasil como tecnologia social

Além do apoio financeiro para aquisição dos itens relacionados, o projeto também recebeu doações de materiais e insumos que reduziram os custos de implantação para ampliação da capacidade produtiva da URT.

Foram recebidos, em doação, mudas de cana-de-açúcar para implantação da barreira vegetal e cordões de contorno, manivas de mandioca para estabelecimento da cultura e adubo orgânico destinado ao enriquecimento do solo e à produção agroecológica. Essas contribuições viabilizaram a implantação do Sistema Appia, e assim permitiram que mais famílias tivessem acesso a cultivares de desempenho superior.

Benefícios e resultados alcançados 

A implantação do Sistema Appia na Comunidade Quilombola Furnas do Dionísio é acompanhada por assistência técnica gratuita e contínua, garantindo que todas as etapas sejam planejadas e executadas de forma participativa, respeitando as características locais e buscando a autonomia das famílias agricultoras.

O trabalho teve início com a realização de um diagnóstico participativo da realidade da comunidade, seguido da seleção da família colaboradora e do planejamento detalhado da área produtiva para implantação do sistema.

Paralelamente, foram instaladas unidades de observação para avaliação, nas condições locais, de diferentes cultivares de cana-de-açúcar, mandioca, hortaliças e espécies frutíferas, permitindo identificar os materiais com maior produtividade, adaptação e qualidade comercial.

Na infraestrutura produtiva, foram construídos um tanque de piscicultura com capacidade para 10 mil litros de água e um barracão multifuncional de 68 metros quadrados (m²), equipado com almoxarifado para armazenamento de ferramentas e insumos e espaço coberto para atividades em dias chuvosos. Também foi implantado um sistema de irrigação por gotejamento para a horta e o pomar, aumentando a eficiência no uso da água.

A produção agropecuária passou a operar de forma integrada. A criação de peixes foi conduzida com manejo técnico da água, alimentação e sanidade, enquanto os efluentes da piscicultura foram reaproveitados na compostagem e na adubação das áreas cultivadas. A compostagem utilizou resíduos vegetais, palhadas, bagaço de cana, restos culturais e esterco animal, promovendo o reaproveitamento de materiais e reduzindo a dependência de insumos externos.

Entre as práticas conservacionistas implantadas destacam-se: a construção de terraços em nível do tipo Manghum (base estreita), protegidos por cordões vegetados de cana-de-açúcar e a implantação de barreira vegetal no entorno da área produtiva, que contribui para o manejo adequado dos solos, das águas e o maior equilíbrio ambiental. Nesse sentido, também foi adotada a rotação de culturas e o plantio direto de hortaliças para ampliar a  sustentabilidade da atividade.

A diversificação de culturas foi outro diferencial do Sistema Appia. Foram implantados cultivos consorciados, como a mandioca de mesa BRS 429 com pimentas sobre mulching (cobertura morta produzida com materiais orgânicos ou sintéticos), o que reduz plantas invasoras, economiza água e eleva significativamente a produtividade. Também foram estabelecidos sistemas integrados de maracujazeiro com pepino e abobrinha, além de pomar de mamão associado à lima ácida Tahiti nas entrelinhas.

Sistema Appia da Embrapa recebe certificação da Fundação Banco do Brasil como tecnologia social

Para comercialização e consumo próprio da comunidade, foram introduzidos plantios de maracujá, mamão, berinjela, jiló, pimenta, alface e abacate, entre outras culturas, em um quintal produtivo ao redor da residência, com mudas adquiridas de viveirista especializado, registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Além dos ganhos produtivos, o Sistema Appia tornou-se um importante espaço de demonstração tecnológica e intercâmbio de conhecimentos. Até o momento foram promovidas reuniões técnicas, dias de campo e visitas de produtores, técnicos, pesquisadores e instituições parceiras, fortalecendo a divulgação da tecnologia, a troca de experiências e o desenvolvimento da agricultura familiar regional.

Christiane Congro Comas (MTb: 825/9 (SC)) Embrapa Agropecuária Oeste

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