Narcotraficante Felipe Santiago Acosta, conhecido como “Macho, tem forte atuação na região que faz fronteira com o Brasil; ação coordenada cumpriu 16 mandados em áreas de difícil acesso; quatro pessoas foram presas e armas foram apreendidas
Envolvendo mais de 300 policiais de diferentes departamentos e nove promotores do Ministério Público paraguaio, foi deflagrada uma grande operação na madrugada desta quinta-feira (13) no Departamento de Canindeyú, no Paraguai, visando desmontar estruturas criminosas ligadas ao narcotraficante Felipe Santiago Acosta, conhecido como “Macho”.
No total, as equipes fizeram 16 buscas em imóveis e áreas rurais suspeitas de abrigar armas, plantações de maconha de alto valor e integrantes da organização criminosa.
Um brasileiro foi preso além de mais três paraguaios, sendo que não foram divulgadas, ainda, as identificações oficialmente, dos detidos. Num dos locais onde aconteceram as incursões (assentamento 1º de Marzo), foram apreendidos um fuzil, uma espingarda, uma pistola, munições e outros objetos. A localidade é considerada de difícil acesso e, segundo as autoridades, havia informações de que a região seria utilizada como área de proteção e apoio logístico para grupos ligados ao tráfico.
O comissário Marcelino Espinoza, em entrevista à emissora paraguaia Telefuturo, comentou que “disseram que era impossível entrar neste local. Entramos com um contingente significativo de agentes antinarcóticos. Apreendemos um fuzil, uma espingarda e uma pistola, pelo que me disseram até agora”, afirmou o comissário.
Outra autoridade que fez questão de estar presente foi o comandante da Polícia Nacional do Paraguai, César Silguero, que chegou ao local depois das 8 horas, acompanhando, então, pessoalmente, o andamento das buscas e também para supervisionar o trabalho das equipes policiais e dos promotores.
Ligação com o EPP
Durante a operação, as forças de segurança também passaram a apurar relatos sobre a possível presença de pessoas ligadas ao Exército do Povo Paraguaio, o EPP, grupo armado que atua principalmente em áreas rurais do país, porém não há confirmação oficial de que integrantes do EPP estejam entre os presos. A eventual ligação permanece no campo das hipóteses investigativas e deverá ser esclarecida a partir da análise das armas, documentos, celulares e demais materiais apreendidos.
Ataque contra policiais
O assentamento 1º de Marzo integra a colônia Naranjito, no distrito de Ybyrarobaná. No final de julho, a área foi palco de um ataque armado contra uma delegacia de polícia.
Na ocasião, dois policiais foram executados e um civil também morreu. A unidade policial foi incendiada, assim como uma viatura e veículos que estavam nas proximidades.
Conforme o portal Última Hora, o episódio elevou a preocupação das autoridades paraguaias com o avanço de grupos criminosos e com a capacidade de atuação de organizações armadas em zonas rurais de Canindeyú.
O ataque também reforçou os questionamentos sobre a presença do Estado na região. Para o criminologista Juan Martens, o governo paraguaio vem perdendo terreno para lideranças do crime organizado, especialmente em áreas onde a fiscalização é dificultada pelo isolamento geográfico, pela extensa zona rural e pela presença de rotas utilizadas para o transporte de drogas e armas.
Canindeyú/MS
Canindeyú ocupa uma posição estratégica na fronteira leste do Paraguai. O departamento faz limite com o Brasil, incluindo áreas próximas ao Mato Grosso do Sul, e mantém conexão logística com o Paraná. Essa localização transforma a região em um ponto sensível para a circulação de maconha, cocaína, armas e outros produtos do crime organizado.
A Rodovia PY-03 é apontada pelas autoridades e especialistas como um dos principais corredores utilizados para a saída de drogas em direção ao território brasileiro. A estrada atravessa áreas importantes de Canindeyú e conecta o interior paraguaio à região de Salto del Guairá, na fronteira com o Brasil.
Do lado brasileiro, a faixa fronteiriça alcança municípios sul-mato-grossenses como Mundo Novo, além de estabelecer ligação com cidades paranaenses situadas na região de fronteira.
A proximidade com centros consumidores, a existência de estradas estaduais e federais e a possibilidade de utilização de rotas secundárias dificultam o controle permanente das autoridades.
Para Mato Grosso do Sul, a movimentação criminosa em Canindeyú representa uma preocupação direta. O estado possui extensa fronteira seca e fluvial com Paraguai e Bolívia e é frequentemente utilizado como rota de passagem para drogas e armas destinadas a outras regiões do Brasil. Municípios como Mundo Novo, Eldorado, Japorã, Iguatemi, Itaquiraí, Amambai, Ponta Porã e Coronel Sapucaia integram uma faixa marcada pela intensa circulação transfronteiriça.
A conexão com o Paraná também amplia o alcance das organizações criminosas. A partir da fronteira, cargas ilícitas podem ser distribuídas para grandes centros consumidores do Sul e do Sudeste do Brasil, além de seguir por diferentes corredores rodoviários.
Tráfico de drogas e armas
Segundo Juan Martens, Canindeyú ocupa a segunda posição entre os departamentos paraguaios com maiores índices de tráfico de cocaína, maconha e armas, atrás apenas de Amambay. A produção de maconha em larga escala, associada à facilidade de transporte para o Brasil, tornou a região estratégica para grupos criminosos que operam dos dois lados da fronteira.
As plantações também costumam estar localizadas em áreas de mata ou propriedades rurais isoladas, onde a entrada das forças de segurança é dificultada. Em muitos casos, as organizações utilizam armamento pesado, vigias e pontos de apoio para impedir a aproximação das autoridades.
A operação desta quinta-feira busca justamente identificar a estrutura responsável pela produção, armazenamento e transporte dos entorpecentes, além de localizar armas que possam ter sido utilizadas em ataques recentes.
‘Macho’ é alvo de operações desde 2023
Felipe Santiago Acosta, o “Macho”, é considerado um dos criminosos mais procurados do Paraguai. A Polícia Nacional e a Secretaria Nacional Antidrogas, a Senad, realizam operações para tentar capturá-lo desde 2023, mas sem sucesso.
O grupo atribuído a Acosta é investigado por crimes relacionados ao tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e violência em áreas rurais. A localização exata do criminoso continua desconhecida, embora as forças paraguaias apontem que ele mantenha uma rede de apoio em diferentes pontos de Canindeyú e em outras regiões do país.
Outro nome associado ao círculo de segurança de “Macho”, Julio César Ortega Servián, foi morto em Tavaí, no Departamento de Caazapá. A morte dele é considerada pelas autoridades como parte da disputa e da repressão contra estruturas criminosas que atuam no Paraguai.
As investigações continuam, e os materiais apreendidos poderão indicar o grau de organização do grupo, a origem das armas e possíveis conexões com crimes cometidos na fronteira com o Brasil.
Também deverá ser apurado se os presos possuem relação direta com o ataque à delegacia de Naranjito ou com outros episódios de violência registrados em Canindeyú


